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Tempo perdido

Todos os dias quando acordo Não tenho mais o tempo que passou... Mas tenho muito tempo Temos todo o tempo do mundo... Renato Russo A filosofia se apresenta para o debate, ela chega mais forte do que nunca. Precisamos falar da vida. O momento urge. O cativeiro involuntário nos convida a reflexão, ao confronto de nossas escolhas. Vislumbramos a nossa história na esperança de encontrar algum motivo que justifique a nossa existência. A cabeça não para. Há um bombardeio de informações, estatísticas que apregoam o isolamento social. Fomos convidados a um encontro pessoal e único com a nossa história. Que oportunidade! Quero falar dela. Observo meus grupos de mensagem com preocupação. De um lado um pânico coletivo, do outro uma romantização do momento. Não é romântico. É sério. Mas provavelmente superaremos tudo. Haverá um preço a ser pago, individual e coletivamente. Vai ser preciso união, atenção pelo outro, paciência, tolerância. Precisaremos disso. Ainda não dispomos destes ...

Legendas para fotos que não fiz (Infância)

                                                                                                                                         Conforto Ingressei no corredor, minha mão estreante segurava a da minha avó, ela a apertava para conter a minha respiração ofegante. Meus passos vagarosos deixavam ouvir o coração palpitando até a chegada da sala de aula. No caminho havia uma porta que se abriu para nós. De lá su...

Rotina

Ana acorda, toma café, fotografa o café. Toma banho, se veste, fotografa o look. Hora da selfie, edição de foto, postagem no Insta. Todo dia é igual, à tarde revê as postagens, checa as curtidas e verifica os seguidores. Um dia se pergunta, a vida é isso? Resolveu se encarar, olhou no espelho e não se achou, perdeu-se na rotina de si mesma.

Jim

Jim não conseguiu ser a primeira em nada, resignou-se com as sobras. Sobras familiares, sobras de ser a outra, achava que poderia viver assim até o fim. Um dia a sorte mudou, apareceu Geane que a colocou no primeiro lugar da fila e se encantou do seu desencanto.   Jim não conseguia acreditar, sentiu um misto de medo e felicidade mas   ousou-se amável. No dia marcado subiu ao altar, ele a aguardava ansioso, ela caminhou e pensou: nunca é tarde, nunca é tarde. Jim tinha 65 anos.

Brilho

Sunset era o nome da festa, um brilho, uma vibração, Alanys excitada, queria aquele momento, todo mundo dizia que era demais, agora com 17 enfim iria viver isso. Vestida para matar chegou no local, e por motivos diferentes, arrancou os olhares dos guris e das gurias. Na primeira batida eletrônica sentiu-se livre. Logo em seguida descobriu que ficaria presa nessa liberdade para sempre.

Troco

Scheila estava no isolamento do hospital, sozinha, mil coisas na cabeça. Fim de casamento, ainda tinha um fio de esperança de salvar aquela relação, mas agora só podia pensar em salvar-se. Lembrou de como a vida dela tinha tomado outro rumo nos últimos meses. Estava tudo bem, ela vivendo sua vida familiar tranquila, o trabalho indo bem, o casamento naquela fase de paz. Antônia com cinco anos, já não dava tanto trabalho. O marido viajando bastante, mas nenhuma novidade nisso, ela terminando o doutorado, enfim tudo parecia uma propaganda de margarina. Um dia notou um perfume diferente no terno do marido, doce, de mulher, ficou intrigada e furiosa. Mal o marido saiu do banheiro, ela começou a indagar o que ele tinha feito, onde tinha ido, se havia alguma colega nova no escritório, ele respondeu com evasivas. Ela não acreditou nas respostas, mas estava finalizando a apresentação para o doutorado e resolveu pensar nisso depois. O marido tentou compensar algum desconforto, ficou algum...

Nostalgia

Quarenta anos se passaram e eu me lembro, como se fosse hoje, do primeiro dia que a vi subindo no ônibus. Ela era nova no bairro e isso despertou a curiosidade dos guris e das gurias. Disseram-me que ela morava na casa recentemente construída na rua abaixo da minha. Fiquei curioso e fascinado com o jeito meigo e aparentemente tímido. É verdade que eu já a havia visto, buscando os irmãos mais novos na escola que ficava bem perto da minha casa. Tenho certeza que ela também me notou, mas quando percebia que eu a estava observando desviava o olhar. No ônibus era a oportunidade de eu me sentar ao seu lado e puxar um papo, mas só de pensar nisso, eu ficava com o estômago embrulhado, ela me deixava nervoso, logo eu, tão cara de pau, para tantas coisas!   Um sujeito namorador e debochado como diria a minha mãe. Mas com ela era diferente, minha pouca idade pesavam-me como chumbo e meus quinze anos não me encorajaram a tomar as rédeas da situação.   Eu queria muito perguntar o seu ...