Tempo perdido
Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou...
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo...
Não tenho mais o tempo que passou...
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo...
Renato Russo
A filosofia se
apresenta para o debate, ela chega mais forte do que nunca. Precisamos falar da
vida. O momento urge. O cativeiro involuntário nos convida a reflexão, ao
confronto de nossas escolhas. Vislumbramos a nossa história na esperança de
encontrar algum motivo que justifique a nossa existência. A cabeça não para. Há
um bombardeio de informações, estatísticas que apregoam o isolamento social.
Fomos convidados a um encontro pessoal e único com a nossa história. Que
oportunidade! Quero falar dela.
Observo meus
grupos de mensagem com preocupação. De um lado um pânico coletivo, do outro uma
romantização do momento. Não é romântico. É sério. Mas provavelmente
superaremos tudo. Haverá um preço a ser pago, individual e coletivamente. Vai
ser preciso união, atenção pelo outro, paciência, tolerância. Precisaremos
disso. Ainda não dispomos destes recursos. Está tudo tão polarizado.
Aterrorizados e românticos enviam suas
ideias. A quem ouvir? Precisamos nos sintonizar
ao momento. Medo demais, adoece; e de menos, mata. Sejamos prudentes. Precisamos nos proteger do
pavor do isolamento. Enfrentá-lo com sabedoria. Fazer do momento, uma chance de
cura. Reservar-se pode ser terapêutico.
Eu já vivi
muitos isolamentos ao longo da vida, mesmo assim, estou lutando com a minha
ansiedade. Rezo, respiro, pratico a oração, são coisas que me ajudam. Nos
últimos anos fiquei isolada muitas vezes, no hospital, com controle rigoroso. Totalmente
sozinha algumas vezes, um teste a sanidade mental. Suportei. Ficar isolada em
casa, é fichinha. Até por que a nossa casa me cura.
Não sei como
está sendo para cada um, só sei que ficar sozinhos nos faz enfrentar nossos
medos, nossas inseguranças, nossa finitude. Sim enrolei bastante, mas não dá
para falar da vida sem falar de morte. Porque a vida acontece neste tempo
incerto entre o nascimento e a morte. É disso que estamos com medo? Ou é da
falta de controle sobre isso? Acho que são as duas coisas. Todo esse medo de
não contágio, tentando impedir que o vírus chegue até nós, em uma tentativa de
escapar deste destino. Que controle temos sobre isso? Quase nenhum. Mais cedo
ou mais tarde teremos contato com ele. E não sabemos como será. Então relaxem.
Para muita
gente o isolamento será a pá de cal no casamento infeliz, mas talvez para
outros, seja o momento preciso para a reconciliação. Alguns terão novas
chances. Haverá oportunidade para dar e pedir perdão, mesmo à distância.
Confrontaremos nossas vulnerabilidades, saberemos quem somos. Torço por isso, me
entrego ao romantismo e aceito minha contradição.
Incrível como
a perspectiva de morte nos amplia a visão. Muitas mortes noticiadas e isso
ocupa o noticiário o tempo inteiro. Então eu me pergunto, e se a minha vida
também estiver acabando? Quem pode prever?
Viktor Frankl,
psicólogo alemão, tem uma frase que me sustentou durante os meus tratamentos
oncológicos, diz assim: Quando a
situação for boa, desfrute-a. Quando a situação for ruim, transforme-a. Quando
a situação não puder ser transformada, transforme-se.
Essa é a
grande oportunidade, perguntar-se para transformar. Sem medo da resposta. Porque sempre há um caminho
novo para recomeçar. E mesmo no fim, há algo para ressignificar. Espero
sinceramente que saiamos disto melhores do que até aqui chegamos. E com algumas respostas, não sobre o Corona vírus.
Mas sim, sobre a vida. Sobre a nossa vida e o que fizemos dela.
O que faremos
ainda não está escrito.
Comentários
Postar um comentário