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Mostrando postagens de novembro, 2019

Rotina

Ana acorda, toma café, fotografa o café. Toma banho, se veste, fotografa o look. Hora da selfie, edição de foto, postagem no Insta. Todo dia é igual, à tarde revê as postagens, checa as curtidas e verifica os seguidores. Um dia se pergunta, a vida é isso? Resolveu se encarar, olhou no espelho e não se achou, perdeu-se na rotina de si mesma.

Jim

Jim não conseguiu ser a primeira em nada, resignou-se com as sobras. Sobras familiares, sobras de ser a outra, achava que poderia viver assim até o fim. Um dia a sorte mudou, apareceu Geane que a colocou no primeiro lugar da fila e se encantou do seu desencanto.   Jim não conseguia acreditar, sentiu um misto de medo e felicidade mas   ousou-se amável. No dia marcado subiu ao altar, ele a aguardava ansioso, ela caminhou e pensou: nunca é tarde, nunca é tarde. Jim tinha 65 anos.

Brilho

Sunset era o nome da festa, um brilho, uma vibração, Alanys excitada, queria aquele momento, todo mundo dizia que era demais, agora com 17 enfim iria viver isso. Vestida para matar chegou no local, e por motivos diferentes, arrancou os olhares dos guris e das gurias. Na primeira batida eletrônica sentiu-se livre. Logo em seguida descobriu que ficaria presa nessa liberdade para sempre.

Troco

Scheila estava no isolamento do hospital, sozinha, mil coisas na cabeça. Fim de casamento, ainda tinha um fio de esperança de salvar aquela relação, mas agora só podia pensar em salvar-se. Lembrou de como a vida dela tinha tomado outro rumo nos últimos meses. Estava tudo bem, ela vivendo sua vida familiar tranquila, o trabalho indo bem, o casamento naquela fase de paz. Antônia com cinco anos, já não dava tanto trabalho. O marido viajando bastante, mas nenhuma novidade nisso, ela terminando o doutorado, enfim tudo parecia uma propaganda de margarina. Um dia notou um perfume diferente no terno do marido, doce, de mulher, ficou intrigada e furiosa. Mal o marido saiu do banheiro, ela começou a indagar o que ele tinha feito, onde tinha ido, se havia alguma colega nova no escritório, ele respondeu com evasivas. Ela não acreditou nas respostas, mas estava finalizando a apresentação para o doutorado e resolveu pensar nisso depois. O marido tentou compensar algum desconforto, ficou algum...

Nostalgia

Quarenta anos se passaram e eu me lembro, como se fosse hoje, do primeiro dia que a vi subindo no ônibus. Ela era nova no bairro e isso despertou a curiosidade dos guris e das gurias. Disseram-me que ela morava na casa recentemente construída na rua abaixo da minha. Fiquei curioso e fascinado com o jeito meigo e aparentemente tímido. É verdade que eu já a havia visto, buscando os irmãos mais novos na escola que ficava bem perto da minha casa. Tenho certeza que ela também me notou, mas quando percebia que eu a estava observando desviava o olhar. No ônibus era a oportunidade de eu me sentar ao seu lado e puxar um papo, mas só de pensar nisso, eu ficava com o estômago embrulhado, ela me deixava nervoso, logo eu, tão cara de pau, para tantas coisas!   Um sujeito namorador e debochado como diria a minha mãe. Mas com ela era diferente, minha pouca idade pesavam-me como chumbo e meus quinze anos não me encorajaram a tomar as rédeas da situação.   Eu queria muito perguntar o seu ...

Branco

Imagem
Acordei e vi acima da minha cabeça diversas criaturas, pareciam fadinhas coloridas, tal como a sininho do Peter Pan. Elas faziam malabarismos para chamar a minha atenção, custei a me dar conta que era real, pensei que fosse sonho ou efeito de alguma droga alucinógena, mas fazia dias que eu não tomava nada, tinha parado até com os remédios. Esfreguei os olhos e a imagem não desapareceu, as fadas começaram a falar comigo, eu não sabia escutar, era uma comunicação diferente, insistiam em me dizer algo, apontaram para a janela. Olhei e vi que no lugar da janela havia um círculo de luz, algo como um portal, entendi que elas me convidavam a passar pelo círculo. Levantei da cama e fui na direção da janela, coloquei um pé, depois outro e me joguei para fora, tive a sensação de cair e senti o baque do meu corpo em algo que parecia uma relva. Abri os olhos, um capim branco me servia de cama, o céu de um azul reluzente acima de mim e as mini criaturas lá me observando, bem acima da minha...