Nostalgia



Quarenta anos se passaram e eu me lembro, como se fosse hoje, do primeiro dia que a vi subindo no ônibus. Ela era nova no bairro e isso despertou a curiosidade dos guris e das gurias. Disseram-me que ela morava na casa recentemente construída na rua abaixo da minha. Fiquei curioso e fascinado com o jeito meigo e aparentemente tímido. É verdade que eu já a havia visto, buscando os irmãos mais novos na escola que ficava bem perto da minha casa. Tenho certeza que ela também me notou, mas quando percebia que eu a estava observando desviava o olhar. No ônibus era a oportunidade de eu me sentar ao seu lado e puxar um papo, mas só de pensar nisso, eu ficava com o estômago embrulhado, ela me deixava nervoso, logo eu, tão cara de pau, para tantas coisas!  Um sujeito namorador e debochado como diria a minha mãe. Mas com ela era diferente, minha pouca idade pesavam-me como chumbo e meus quinze anos não me encorajaram a tomar as rédeas da situação.  Eu queria muito perguntar o seu nome, saber a sua idade. Minhas observações me levavam a crer que ela parecia mais nova que eu, tinha olhos de menina, e era dona de um sorriso que convidava. Não tive coragem de me aproximar para puxar uma conversa, passei a catraca do ônibus e segui para os bancos da frente. Percebi que ela estava acompanhada da irmã mais velha e de algumas vizinhas, ouvia a conversa que vinha delas, as risadas, os gritinhos e os sussurros, mas não me atrevi a olhar para trás e fiquei imaginando qual seria a voz dela, será que era ela que ria alto daquele jeito?  Na hora de descer do ônibus criei coragem e olhei em sua direção, percebi então, que ela estava absorta em um livro, não participava muito do frege das gurias.
Voltei a revê-la dias depois em uma reunião dançante do bairro. Ela chegou ao som de “Starting Over”, uma das músicas mais tocadas do ano. Quando a vi, meu coração quase saltou pela boca! Ela chegou com o meu amigo e os dois estavam de mãos dadas, logo descobri que se tratava de um namoro, fiquei indignado, principalmente por ser ele, um cara meio ordinário...
Meu amigo era um cara assediado pelas gurias do bairro, vamos dizer que ele era o Justin Biber dos anos 80, carinha de anjo, mas tinha aquele 1% que comprometia. Ela ia sofrer nas mãos dele! Ele não era de namorar uma só, sempre tinha várias gurias esperando por ele. Algumas inclusive se intitulavam mais oficiais que as outras, ou seja, ela estava em uma roubada! Eu era um anjinho perto dele e me achava muito melhor para ela, inclusive.  Foi então que eu decidi me aproximar da dupla de pombinhos  e firmar uma amizade com ela. Meu plano era ficar por perto o máximo que eu conseguisse, isso me serviria de consolo e eu iria esperar pelo dia em que ele inevitavelmente aprontaria e eu estaria lá para consolá-la...
A amizade cresceu, ficamos inseparáveis, eu me aproximei da sua família, isso não era difícil porque a casa estava sempre lotada da gurizada do bairro, os pais dela acreditavam que era melhor ter os amigos por perto, então a junção era sempre lá. Ficavamos até tarde conversando e ouvindo a música nos discos de vinil, do recém comprado três em um, Quenn, Air Supply, Scorpions, Elton Jonh, era a nossa trilha preferida.
Ela parecia mais velha do que realmente era, só tinha treze anos, mas fazia muitos planos. Era estudiosa, sonhava com a universidade e com uma vida independente. Ela alegava que essa liberdade de ter os amigos dentro de casa, nada mais era que uma forma de controle dos pais e ela se ressentia com a falta de confiança e diálogo. Passávamos as tardes conversando, fazíamos planos para quando a maioridade chegasse e eu percebia que o mundo lhe parecia imenso e cheio de possibilidades. Acho que foi isso que aos poucos ampliou a minha visão de mundo.
Enquanto a nossa amizade crescia, o namoro entre ela e o meu amigo esfriava. Eu perguntava pelo dito cujo e ela respondia que ele estava cada vez mais ausente, não comparecia às quartas-feiras e  parecia muito indiferente ao namoro. Ela dava de ombros e parecia que nem ligava, dizia que não era dessas de correr atrás de namorado. Ele que deveria vir atrás dela, se quisesse.
Descobri no desinteresse dela, uma chance de aproximação, resolvi que estava na hora de surpreendê-la com um beijo, um abraço, e lhe dizer o quanto eu a queria perto de mim, acho que até para sempre. Eu tinha muita vontade, mas não tinha coragem, temia ser rejeitado e perder essa ligação que tínhamos conquistado.
Foi então que nos encontramos em um aniversário de 14 anos de uma amiga em comum.  No aparelho de som, começou a tocar Ebony and Ivori, na voz de Paul  Mc Cartney e Stevie Wonder,  tomei fôlego e tirei-a para dançar, dançamos de rosto colado, como dois namorados, ao final da música roubei um beijo, ela ficou vermelha, envergonhada, mas correspondeu, abri um pouco meus olhos e vi que ela me beijava de olhos fechados, confiante, tive certeza de que ela também queria isso. Tivemos aquele segundo em que podemos sentir a pulsação um do outro, parecia que o mundo em torno de nós não existia.  
A história de amor cresceu e fez família, foram anos de intensidade, amor, brigas, reconciliações e beijos de olhos fechados. Um dia ela partiu mas antes fez um pedido, não deixe a solidão ser a tua melhor amiga...
 Desde então eu tenho tentado viver  outros roteiros e outros inícios , mas confesso que essa nostalgia é um nó difícil de desatar.

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