Branco
Acordei e vi
acima da minha cabeça diversas criaturas, pareciam fadinhas coloridas, tal como
a sininho do Peter Pan. Elas faziam malabarismos para chamar a minha atenção,
custei a me dar conta que era real, pensei que fosse sonho ou efeito de alguma
droga alucinógena, mas fazia dias que eu não tomava nada, tinha parado até com
os remédios.
Esfreguei os
olhos e a imagem não desapareceu, as fadas começaram a falar comigo, eu não
sabia escutar, era uma comunicação diferente, insistiam em me dizer algo,
apontaram para a janela. Olhei e vi que no lugar da janela havia um círculo de
luz, algo como um portal, entendi que elas me convidavam a passar pelo círculo.
Levantei da
cama e fui na direção da janela, coloquei um pé, depois outro e me joguei para
fora, tive a sensação de cair e senti o baque do meu corpo em algo que parecia
uma relva.
Abri os olhos,
um capim branco me servia de cama, o céu de um azul reluzente acima de mim e as
mini criaturas lá me observando, bem acima da minha cabeça. Tentei levantar e
fiquei tonta, insisti, sentei e observei o meu entorno. Ao longe uma cadeia de
montanhas, tão brancas como a relva em que eu me encontrava. Não tinha sol, nem nenhum astro visível. Enxerguei uma criatura vindo em minha
direção, sua aparência contrastava com o cenário em que eu me encontrava, vinha
esvoaçante colorida e transparente, uma cena linda, poética, senti uma
nostalgia daquela imagem, me parecia algo familiar, algo que eu já conhecia
desde sempre. Eu sabia que já tinha visto aquela imagem muitas vezes, nos meus
sonhos, sempre que algo me preocupava, ela vinha em meu socorro, talvez fosse minha
fada madrinha. Qual seria a transformação desta vez? Uma paz me invadiu, não tinha dor, não tinha
ânsia, apenas a paz que essa imagem me causava, era um um colo não físico,
sensação indescritível.
Fiquei assim
observando aquele ser que vinha em minha direção e que não chegava. Nesta
espera me sentia flutuando, parece que eu estava vivendo em uma dobra do tempo,
à margem das horas. Entendi que as criaturas queriam me contar alguma coisa,
mas eu não aprendia a escutar.
O tempo parou
de contar, isso eu percebi. O mundo para o qual eu havia me jogado, era outro. Eu precisava reaprender a ver, para poder descrever. Aos poucos fui tomando
consciência disso. Ao longe vi que alguém como eu se aproximava, talvez pudesse
me explicar o que estava acontecendo. O ser me pegou pela mão e me disse: “Vem
e vê”. Me levou até o portal e pediu que eu olhasse para fora, coloquei o corpo
para dentro do círculo, reconheci o jardim do meu prédio, e reconheci a mim
mesma caída na calçada, uma poça de sangue ao lado do corpo. Várias pessoas
acima de mim me olhando, chorando, inconformadas.
O ente querido
me olhou e me disse:
— Fica
tranquila, acabou.
Branco total.

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